Chartered Psychologist and Lecturer (PhD)

Dr. Pontes' Blog

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Adição Tecnológica – o que é?

Excerto de um documento da BBC [em Inglês] sobre adição tecnológica.

A adição tecnológica – por vezes designada como adição à Internet – é um fenómeno relativamente recente. Este fenómeno é por vezes descrito como um problema psicossocial sério que afeta várias áreas do funcionamento psicológico, sociológico, biológico e que envolve a incapacidade de controlar a utilização de diversos tipos de tecnologia, em particular a Internet, smartphones, tablets, videojogos ou até mesmo as redes sociais como o Facebook, Snapchat, Twitter ou Instagram.

Hoje em dia é muito fácil e relativamente barato navegar na Internet, enviar mensagens, jogar online e aceder às redes sociais praticamente de qualquer localização a qualquer hora. Tudo isto, graças aos avanços tecnológicos mais recentes e à elevada capacidade computacional dos telemóveis, que hoje em dia são autênticos “computadores de bolso”, que permitem realizar várias tarefas exigentes do ponto de vista informático e computacional.

A proliferação e aumento de popularidade do uso da Internet a nível internacional tem contribuído para o surgimento de comportamentos aditivos em relação ao uso das tecnologias. Em Portugal, os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística revelam que 70% das famílias portuguesas têm acesso à Internet em casa, sendo que o acesso à Internet através da banda larga predomina entre as famílias com crianças (90%), sobretudo nas regiões metropolitanas do país (Instituto Nacional de Estatística, 2015). Em relação ao uso das redes sociais online, em 2015, 70% dos utilizadores de Internet em Portugal utilizaram redes sociais online, sendo que em 2014, a proporção de residentes que utilizou as redes sociais online foi superior em 14% à média da EU-28. É, por isso, pouco surpreendente que especialistas e cientistas internacionais estejam a testemunhar um aumento exponencial de comportamentos e tendências aditivas que envolvem o uso excessivo e patológico da tecnologia. É importante notar que, quando falamos de tecnologias incluímos por exemplo os videojogos, cibersexo, pornografia online, apostas online entre outros comportamentos online mediado pela tecnologia.

O fenómeno da adição tecnológica não é atualmente um fenómeno reconhecido como transtorno psiquiátrico pelas autoridades de saúde mental internacionais como por exemplo a Organização Mundial de Saúde. No entanto, em Maio de 2013, a Associação Psiquiátrica Americana incluiu pela primeira vez no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) (o manual de diagnóstico de transtornos mentais mais utilizado por psiquiatras e psicólogos a nível mundial), o fenómeno do “Transtorno do jogo pela Internet” (ou seja, o uso excessivo e patológico dos videojogos como um condição para estudos posteriores) (American Psychiatric Association, 2013). Em 2016, a Organização Mundial de Saúde decidiu incluir o fenómeno da adição aos videojogos na próxima revisão (11ª) do seu manual diagnóstico - Classificação Internacional de Doenças - devido ao crescente acumular de evidência científica a confirmar os efeitos nocivos do uso desregulado e excessivo dos videojogos.

Embora o fenómeno das adições tecnológicas não seja ainda um problema de saúde mental oficialmente reconhecido (pelo menos no seu sentido mais amplo, uma vez que o jogo patológico online e a adição aos videojogos já são), este fenómeno tem vindo a ser estudado cientificamente, a nível internacional, desde os anos 90. Em 1995, a psicóloga clínica Dra. Kimberly Young inaugurou o “Center for Internet Addiction” nos Estados Unidos e desenvolveu o primeiro protocolo de tratamento para adições tecnológicas baseado no modelo psicoterapêutico cognitivo-comportamental. Em Portugal, o estudo científico das adições tecnológicas observou um atraso de quase duas décadas em relação ao panorama internacional (Pontes, Andreassen, & Griffiths, 2016), sendo que os primeiros estudos científicos realizados nesta área foram conduzidos pelo Professor Dr. Halley Pontes, inicialmente através da sua tese de mestrado (2012) onde estudou a adição à Internet na população portuguesa.  Posteriormente, continuou a conduzir vários estudos com especialistas internacionais de vários países no contexto do doutoramento que concluiu em adições comportamentais e tecnológicas no Reino Unido, culminando na primeira tese de doutoramento de origem portuguesa focada nas adições tecnológicas sob a supervisão integral do Professor Distinguido Mark Griffiths, autor dos primeiros estudos na Europa. Atualmente, Dr. Pontes mantém-se como uma autoridade nacional e internacional na área das adições tecnológicas através dos mais de 80 estudos científicos publicados. Recentemente,, em Janeiro de 2017,  fundou ainda a Sociedade Portuguesa das Adições Comportamentais e Tecnológicas (SPACT) com a missão de promover a formação de profissionais de saúde mental na área das adições tecnológicas e promover a área a nível social de forma responsável.

Embora a forma como os cientistas diagnosticam as adições tecnológicas possa variar substancialmente, os estudos mais recentes dão conta de que as adições tecnológicas afetam apenas uma minoria de utilizadores a rondar os 5% (Pontes, Kuss, & Griffiths, 2015). Em Portugal ainda não existem dados representativos e oficiais que nos permita entender a extensão dos problemas gerados pelas adições tecnológicas nem a percentagem da população afetada por este problema. Não obstante, a adição tecnológica é amplamente reconhecida como um problema de saúde pública em vários países, tais como a Austrália, China, Japão, India, Itália, Coreia do Sul e Taiwan. Estes países possuem vários centros clínicos dedicados ao tratamento da adição tecnológica.

Tal como qualquer outro transtorno aditivo, a adição tecnológica pode variar em termos da sua severidade, sendo que diversos estudos de neuroimagem evidenciam que a adição tecnológica produz efeitos no cérebro semelhantes às adições químicas, dado que as mesmas áreas cerebrais são ativadas em ambos os tipos de adições (Castro-Calvo, Ballester-Arnal, Gil-Llario, & Giménez-García, 2016; Gallimberti et al., 2016; Pontes, Kuss, & Griffiths, 2017; Rücker, Akre, Berchtold, & Suris, 2015; Weinstein, 2017; Weinstein, Livny, & Weizman, 2017). Por conseguinte, os mesmos problemas a nível cerebral são gerados por ambos tipos de adição, tais como: alteração de estruturas no cérebro (Altbäcker et al., 2016; Dong, Huang, & Du, 2012; He, Turel, & Bechara, 2017), redução no volume de massa cinzenta e massa branca no cérebro (Ko et al., 2015; Lee, Namkoong, Lee, & Jung, 2017; Lin, Dong, Wang, & Du, 2015; Sun et al., 2014; Weng et al., 2013; Zhou et al., 2011), levando a que os indivíduos experimentem diversos tipos de transtornos afetivos e cognitivos tais como a depressão (Youh et al., 2017), ansiedade (Primack et al., 2017), desregulação do sono (Bhandari et al., 2017), défice de atenção (Yen et al., 2017) entre outros problemas do foro psicológico (eg., transtornos psicológicos), social (eg., problemas relacionais do foro interpessoal) e biológico (eg., obesidade, dor, distensões) (Na, Lee, Choi, & Kim, 2017; Romano et al., 2017; Schneider, King, & Delfabbro, 2017a, 2017b; Starcevic & Khazaal, 2017; Yu & Shek, 2017).

O número de horas que uma pessoa passa a utilizar a tecnologia não é um indicador robusto da presença de adição, sendo que a avaliação deverá incluir um conjunto de indicadores clínicos. Alguns dos sintomas clássicos da adição tecnológica podem incluir:

·         Pensamento obsessivo em relação ao uso da tecnologia

·         Utilização compulsiva da tecnologia (eg., verificação compulsiva de mensagens)

·         Uma sensação subjetiva de euforia e bem-estar ao utilizar a tecnologia

·         Crescente desconforto e irritabilidade face à impossibilidade de utilizar a tecnologia

·         Presença de diversos conflitos e problemas gerados pelo uso excessivo da tecnologia

·         Impossibilidade de controlar o uso e cessar a utilização da tecnologia

·         Perda de interesse em outra atividades e hobbies que não envolvam o uso da tecnologia

Se acha que está a viver um problema desta ordem ou se conhece alguém que lhe seja próximo que eventualmente esteja a precisar de ajuda ou apenas mais informações, queira por favor entrar em contato com a Sociedade Portuguesa das Adições Comportamentais e Tecnológicas (SPACT) através do seguinte email: geral@spact.pt e um representante irá entrar em contato consigo.

Caso queira utilizar informações deste artigo em trabalhos académicos, queira por favor referenciar o mesmo da seguinte forma:

Pontes, H. M. (2017, Novembro 04). Adição Tecnológica – o que é? Acessado através de www.halleypontes.com/blog/adicao-tecnologica-dependencia-internet

 

Referências:

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